Onde a realidade se encontra com a ficção

 


Demorei semanas a ler meio livro, e um dia a ler o que restava. O dia-a-dia é mesmo assim, uma constante disputa com o Tempo. Poder-se-á pensar que tal dispersão no tempo melindrou a leitura. Parece-me, no entanto, que a boa estruturação da obra limitou as perdas. Refiro-me, claro, a A Melodia dos Adeus, o mais recente romance de Nicholas Sparks.

A protagonista desta história é Ronnie, uma jovem nova-iorquina de dezassete anos revoltada com o mundo, e em especial com os pais. Desde que estes se separaram, a adolescente vive transtornada com a autoridade da mãe e recusa-se a falar com o pai. Porém, naquele Verão, ela e o seu irmão mais novo são levados a passar o Verão com o pai, numa pequena cidade costeira na Carolina do Norte.

Ronnie rejeita a aproximação paterna, e afasta-se de casa. Arranja problemas, mas graças a eles começa a ver no pai a figura que faltava na sua vida desgovernada. Encontra também o amor, sentimento que a transforma, ora graças ao crescimento emocional que lhe proporciona, ora devido aos abalos que lhe causa.

Esta é, claramente, uma história de amor. Mais, é uma história romântica. O autor é conhecido pelas suas cativantes tramas amorosas, portanto outra coisa não seria de esperar. Contudo, a verdade é que é difícil não sentir a empatia pelo casal. Este é como queremos que seja, tal e qual como deveria ser e, talvez por isso, tão apaixonante.

Há, porém, outra espécie de amor que caracteriza esta obra, um amor, a meu ver, mais autêntico, mais forte e mais necessário: o amor entre a família. A relação entre Ronnie e o seu pai apresenta uma evolução encantadora. Embora, sobretudo a partir do meio da história, esta relação seja marcada por clichés, a verdade é que estes são muitíssimo bem estruturados pelo autor. Se o leitor se entregar incondicionalmente à narrativa (como sempre deveria ser mas como, pelo que vejo, acontece cada vez menos), viverá uma experiencia avassaladora. As personagens são donas de personalidades credíveis e especiais, e a acção desenrola-se em torno de acontecimentos humanamente poderosos. É fácil cair aos pés das personagens e partilhar os seus sentimentos. Confesso que chorei, como já não chorava há anos, como nunca chorei a ler um livro.

Emoções pessoais à parte, A Melodia do Adeus é um livro bem escrito, com personagens muito humanas e um enredo linear mas muito sedutor. Tem um estilo específico, como é explícito; no entanto, diria que pode tocar todos os que estejam dispostos a se entregar ao fluir dos acontecimentos.

Se é literatura leve? Não, a mim não me pareceu nada leve, mas mais uma vez depende do que cada um espera do que lê. Eu fiquei convencido, e gostava de experimentar outra obra do autor.

Resta-me dizer que o livro foi já adaptado para cinema.

publicado por Dreamer às 20:01 | link do post
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