Onde a realidade se encontra com a ficção
publicado por Dreamer às 23:20 | link do post
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Pablo Neruda é considerado um dos mais importantes poetas do século XX, tendo sido distinguido com o Prémio Nobel da Literatura em 1971. Este homem é uma das personagens da mais reconhecida obra de Antonio Skármeta: O Carteiro de Pablo Neruda.

A pequena novela passa-se na Ilha Negra, no Chile, onde o poeta chileno vive e escreve. Os outros moradores do pequeno território são, na sua maioria, pescadores. Mas o jovem Mario quer outra forma de subsistência para si, e acaba por tornar-se no carteiro da Ilha, na qual apenas Neruda recebe correspondência. E assim, começa uma relação singular entre estes dois homens, a qual se desenvolve quando Mario pede conselhos ao poeta para conquistar a jovem por quem se apaixonou.

A história é bastante curta e lê-se num só trago. Skármeta apresenta uma escrita cativante e cuidada, por vez quase poética devido aos estilismos utilizados, embora seja simples. Essa escrita, e a própria evolução da narrativa, adequa-se aos momentos apresentados, sejam eles simples evolução do enredo, episódios de introspecção ou acontecimentos históricos.

Gostava de ter podido aprofundar alguns tópicos da obra, tais como a amizade entre Mario e Neruda, cujos diálogos fazem esta obra valer a pena, e o contexto histórico de toda a narrativa, o qual esclarece muito pouco acerca do regime político chileno da época e acerca do envolvimento do próprio Neruda na política do país. Penso que será correcto afirmar que, neste ponto, a obra se debruça quase exclusivamente na influência que o poeta e a simbologia do poeta têm no carteiro.

Mario torna-se num misto de fã e adorador de Pablo Neruda, manifestando uma espécie de admiração e respeito de homem humilde perante um eremita intelectual. Foi interessante assistir à (breve) evolução desta relação despreocupada e ao modo como a poesia, e em especial a metáfora, a influenciaram.

Em suma, é uma leitura rápida e agradável. Há pouca contextualização a aprofundamento dos acontecimentos, por isso é difícil ser arrebatado pela obra. Mesmo assim, o autor soube como cativar, e cada página é lida com prazer, já na ânsia da próxima.

publicado por Dreamer às 11:14 | link do post

 

 


A partir do prefácio, é possível tomar conhecimento do passado obscuro e do universo familiar de Matt, o protagonista. Este homem vive atormentado pelos seus fantasmas familiares, nomeadamente, pela Grande Tristeza, consequência do rapto da sua filha mais nova. Os primeiros capítulos debruçam-se, precisamente, sobre esta desventura.

Trata-se de um episódio emocionante e até perturbador, que retrata alguns dos mais profundos valores humanos, ao qual não pude passar indiferente. Associado a isso está o estilo, bastante cativante, o que me levou a não dar pelo passar das páginas.

Depois disso há uma viragem na narrativa, que se torna mais onírica, devido à focalização em Deus e na espiritualidade. E aqui devo fazer notar as minhas descrenças e agnosticismo, pois não consegui, de todo, deixar de considerar algumas observações sobre Deus palavreado para irracionais. Note-se: o escritor tem uma escrita consistente e a história narrada pode tocar os corações dos que têm uma grande fé. Porém, acho que a ambiguidade sobre as figuras divinas mantém-se, o que é frustrante.

À medida que a história evolui, surgem metáforas que remetem para a espiritualidade e a auto-ajuda. Nesse sentido, o protagonista coloca questões pertinentes e traz a discussão interessantes temas teológicos, mas como é usual neste tipo de literatura, o leitor nunca obtém uma resposta satisfatória - ou melhor, nunca obtém uma efectiva conclusão e por isso não me satisfiz. É que, na minha perspectiva – eventualmente ateia - ler a obra com espírito crítico resulta numa de duas consequências: ou nos tornamos verdadeiros ateus; ou lemos tudo como ficção e mitologia.

É que – e quase num desabafo ideológico – algumas passagens mostram contradições comuns e ridículas acerca de Deus, que por vezes é arrogante e incoerente. Acima de tudo, não tolero a ideia de que não precisemos de conhecer os desígnios da divindade, de que basta aceitá-los.

Ainda assim, a obra alerta para alguns paradigmas humanos interessantes, oportunos e relevantes, por isso faz-nos reflectir. E como a história demonstra, é importante parar para reflectir sobre o nosso modo de vida.

De uma forma geral, trata-se de um livro que de uma ou outra maneira nos influencia espiritualmente e nos leva a reflectir acerca da humanidade e das bases da nossa sociedade. É uma narrativa muito fluida, com surpresas e episódios muitíssimo bem delineados. Como já referi, cada página obriga-nos a ler a seguinte; e fi-lo com prazer.

Compreendo o sucesso da obra nos EUA e no Brasil, mas, sinceramente, creio que o enredo não se ajusta ou adequa tão harmoniosamente à mentalidade europeia. Apesar disso, tem tudo para ser um sucesso de temporada.

É uma obra para ler e sobre a qual reflectir

publicado por Dreamer às 17:12 | link do post
publicado por Dreamer às 20:04 | link do post

 


Demorei semanas a ler meio livro, e um dia a ler o que restava. O dia-a-dia é mesmo assim, uma constante disputa com o Tempo. Poder-se-á pensar que tal dispersão no tempo melindrou a leitura. Parece-me, no entanto, que a boa estruturação da obra limitou as perdas. Refiro-me, claro, a A Melodia dos Adeus, o mais recente romance de Nicholas Sparks.

A protagonista desta história é Ronnie, uma jovem nova-iorquina de dezassete anos revoltada com o mundo, e em especial com os pais. Desde que estes se separaram, a adolescente vive transtornada com a autoridade da mãe e recusa-se a falar com o pai. Porém, naquele Verão, ela e o seu irmão mais novo são levados a passar o Verão com o pai, numa pequena cidade costeira na Carolina do Norte.

Ronnie rejeita a aproximação paterna, e afasta-se de casa. Arranja problemas, mas graças a eles começa a ver no pai a figura que faltava na sua vida desgovernada. Encontra também o amor, sentimento que a transforma, ora graças ao crescimento emocional que lhe proporciona, ora devido aos abalos que lhe causa.

Esta é, claramente, uma história de amor. Mais, é uma história romântica. O autor é conhecido pelas suas cativantes tramas amorosas, portanto outra coisa não seria de esperar. Contudo, a verdade é que é difícil não sentir a empatia pelo casal. Este é como queremos que seja, tal e qual como deveria ser e, talvez por isso, tão apaixonante.

Há, porém, outra espécie de amor que caracteriza esta obra, um amor, a meu ver, mais autêntico, mais forte e mais necessário: o amor entre a família. A relação entre Ronnie e o seu pai apresenta uma evolução encantadora. Embora, sobretudo a partir do meio da história, esta relação seja marcada por clichés, a verdade é que estes são muitíssimo bem estruturados pelo autor. Se o leitor se entregar incondicionalmente à narrativa (como sempre deveria ser mas como, pelo que vejo, acontece cada vez menos), viverá uma experiencia avassaladora. As personagens são donas de personalidades credíveis e especiais, e a acção desenrola-se em torno de acontecimentos humanamente poderosos. É fácil cair aos pés das personagens e partilhar os seus sentimentos. Confesso que chorei, como já não chorava há anos, como nunca chorei a ler um livro.

Emoções pessoais à parte, A Melodia do Adeus é um livro bem escrito, com personagens muito humanas e um enredo linear mas muito sedutor. Tem um estilo específico, como é explícito; no entanto, diria que pode tocar todos os que estejam dispostos a se entregar ao fluir dos acontecimentos.

Se é literatura leve? Não, a mim não me pareceu nada leve, mas mais uma vez depende do que cada um espera do que lê. Eu fiquei convencido, e gostava de experimentar outra obra do autor.

Resta-me dizer que o livro foi já adaptado para cinema.

publicado por Dreamer às 20:01 | link do post

 


Nos últimos anos a Porto Editora aumentou o seu catálogo de obras literárias e publicou alguns fenómenos de vendas no nosso país. Entre eles destaca-se Dorothy Koomson, autora britânica que deu nas vistas com A filha da minha melhor amiga e que volta agora às livrarias portuguesas com O amor está no ar.

A sinopse desta história deixa muito a desejar, pois há muito mais do que lá se antevê. A protagonista deste romance é Ceri, uma jovem mulher que decide sair de Londres, onde nasceu e trabalha, e voltar para a cidade onde se formara, Leeds, em busca do bem-estar pessoal e da satisfação profissional. A mudança acaba por ser uma fuga à rotina, ao dia-a-dia que não a completa e aos problemas pessoais e amorosos, não só os seus, mas os de todos os que a rodeiam. É que Ceri tem algo, algo que transforma as pessoas em seu redor, fazendo-as abrir os seus corações e partilhar com ela os seus sentimentos e os seus segredos, obrigando-a a viver os dramas e os desgostos dos outros como se fossem seus. Graças a essa estranha característica, a tranquilidade tão almejada pode não passar de um sonho.

Há medida que o romance, narrado na primeira pessoa, avança, somos confrontados com a adaptação de Ceri a uma nova vida. Contudo, o seu fardo teima em manter-se, e a protagonista torna-se parte de múltiplas histórias amorosas. Diversas personagens, muito diversificadas mas invariavelmente marcadas pela espontaneidade e autenticidade, surgem ao longo de uma obra que se justifica com cada página. Ao invés de um enredo com desenvolvimento linear, preciso e, quiçá, previsível, neste livro em cada capítulo surgem novas e inesperadas situações.

Mesmo com alguns momentos comoventes, parece-me que esta é uma história divertida. Tal deve-se, sobretudo, ao modo como a protagonista interpreta o que a rodeia. Ceri é, note-se, uma personagem complexa e suficientemente forte para suportar todo o romance. Graças a ela, temos uma história diferente.

Não se trata de mais uma história de amor. É antes uma narrativa ligeira, divertida e, por acaso, romântica, uma história sobre amor, ou, melhor ainda, uma história sobre uma jovem mulher com o dom e o fardo de despertar e amplificar os sentimentos que movem os que a rodeiam. “Será ela o Cupido dos tempos modernos?”, lê-se na sinopse. A resposta é interessante, de várias perspectivas, e constitui um dos pormenores mais discutíveis na obra. No entanto, seja como for, este livro fez-me pensar nos meus objectivos pessoais e no que realmente quero, qual espelho da protagonista, e, por isso, constitui uma leitura mais do que satisfatória.

Em suma, O amor está no ar consegue um lugar especial dentro do género, ao distanciar-se da tradicional história de amor, ou mesmo da própria escrita feminina, e ao impor-se como obra cativante, multivalente e promotora da reflexão. Representa um meio-termo repleto de virtudes que merece ser lido, quanto mais não seja porque tem tudo para agradar a um público diverso.

Quanto a mim, fica a satisfação e a vontade de conhecer melhor uma autora que, até há pouco, não me havia despertado interesse. A leitura tem destas coisas…

publicado por Dreamer às 21:58 | link do post
 

Philip Roth está entre os grandes escritores norte-americanos dos nossos dias e, depois de ter lido A Mancha Humana, obra de referência publicada em 2001, penso compreender porquê. A par de um enredo cativante e de histórias ricamente entrelaçadas está um estilo magnífico e inconfundível. O suceder de personagens, narradores e perspectivas e a capacidade singular de descrever cada homem e cada mulher sem subterfúgios, aceitando as suas falhas e vergonhas sem reservas, surpreendeu-me mais do que pensava ser possível. Para além disso, há nesta obra uma ética disciplinadora e a preocupação em discutir a complexidade do Homem indivíduo e do Homem social. Por outras palavras, trata-se duma excelente leitura.

A própria história merece atenção: no Verão de 98, a América mostra-se sôfrega por censurar e punir o presidente Clinton, que traiu a esposa e o país. Esta “indignação hipócrita” serve de mote à estória de Coleman Silk, um velho professor universitário que vê a sua carreira arruinada após proferir uma palavra ambígua no momento errado. Esse instante terá consequências devastadoras na sua vida e na dos que o rodeiam.

Um deles é o escritor Nathan Zuckerman, arrastado para a história pela sede de vingança de Coleman. Acabou por tornar-se seu amigo, e é ele, alter ego do próprio Roth, quem nos guia pela narrativa e nos vai apresentando os velhos e determinantes segredos do verdadeiro Coleman Silk, um homem capaz de esconder as suas origens para criar a sua própria realidade.

Os segredos são, por si só, um dos temas da obra. Todos os temos, e é fascinante assistir ao iluminar de cada memória escondida das personagens: para além de Silk, existem outros homens e mulheres que nos são revelados, com franqueza e profundidade. Essas memórias permitem-nos construir a verdadeira identidade de cada um deles, a par daquela que nos é inicialmente descrita. Há neste livro esse cuidado: o cuidado de colocar ao mesmo nível as múltiplas identidades que cada um de nós transporta, seja aquela que nos corre nas veias, a que diariamente tentamos construir, a outra que todos os que nos rodeiam observam ou a verdadeira identidade, demasiado complexa para ser inteiramente compreendida. Com isto se adivinha a qualidade das personagens, tão reais quanto a própria vida.

Graças a essa vertente, a narração facilmente é entregue a essas pessoas, que nos relatam as suas próprias histórias e perspectivas, mas sem nunca nos fazer esquecer a acção principal, antes completando-a e elucidando-a. Isso torna a obra cativante, sem monotonias ou aborrecimentos. Não é que seja perfeita, mas tenho pouco de negativo a apontar.

É contemporânea e actual, e debruça-se sobre aquilo que está para além da mancha humana: os segredos e a tensão das revelações, o desejo e a vontade de arriscar, a certeza de que não existem os bons e os maus, apenas a vida humana em diferentes perspectivas. Uma obra completíssima que, sem dúvida, recomendo.

publicado por Dreamer às 12:56 | link do post
publicado por Dreamer às 12:52 | link do post

 

A grandiosidade desta obra está na facilidade com que o autor transforma simplicidade em perfeição.E, neste caso em particular, na evolução e desenvolvimento do ser humano numa das suas fases mais intricadas e avassaladores em que o tudo ou nada comandam o destino e onde se arrisca sempre a dar mais um passo com a esperança de se ir mais além.
publicado por Dreamer às 15:46 | link do post
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